Autor: Fátima Schenini
Graduada em história, com curso de
doutorado em história social, Raquel Glezer é docente do Departamento de
História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade
de São Paulo. Atua tanto na graduação quanto na pós-graduação, com orientação
de alunos em iniciação científica, aperfeiçoamento, mestrado, doutorado e
pós-doutorado, pesquisa e extensão.
Ela foi professora da rede de ensino do
Estado de São Paulo durante dez anos, quando lecionou as disciplinas de
história do Brasil e história geral nos níveis fundamental e médio. É
representante da área de história na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal
de Nível Superior (Capes/MEC).
Em entrevista ao Jornal do Professor,
Raquel Glezer diz que o material para trabalhar com história no ensino
fundamental está na sociedade. Cabe ao professor selecionar o que é possível
utilizar e de que maneira. E diz que despertar o interesse pela pesquisa é
fundamental.
Jornal do Professor – Qual é a
importância do ensino de história no ensino fundamental?
Raquel Glezer – O ensino de história nos
anos iniciais de formação tem a finalidade de criar a noção de individualidade
e de pertencimento a uma comunidade. Na prática, os professores podem trabalhar
com os próprios documentos que a criança tem: certidões de nascimento,
certificado de vacina, fotos familiares, histórias de família que eles podem
coletar e editar.
O material para trabalhar com história
está na sociedade. Cabe a cada professor selecionar, de acordo com a sua turma,
com a sua escola, na comunidade em que atua, o material possível de ser
utilizado e a melhor maneira de utilizar este material.
Uma boa aula de história pode utilizar
todo e qualquer material existente na sociedade. Uma aula expositiva pode
esclarecer algumas dúvidas, discutir de forma mais analítica o que vai ser
realizado ou o que já foi realizado. Mas cabe uma atividade empírica com os
alunos, de coleta de material, de organização, e, acima de tudo, de análise,
para dar significado ao trabalho, de material coletado, que serve para que a
criança possa entender o espaço em que ela vive, o espaço escolar, a relação
familiar, a comunidade em que ela está inserida e ir ampliando esses elementos,
progressivamente.
JP – A senhora acha que é possível
despertar o interesse pela pesquisa entre os jovens estudantes? Qual é a
importância de se fazer isso?
RG – A pesquisa pode ser feita de forma
adaptada em qualquer faixa etária e é fundamental que seja possibilitado à
criança a percepção de que conhecimento é algo em processo, em crescimento, que
são etapas de formulação de conhecimento. Então, despertar o interesse é
fundamental e mostrar que conhecer a sociedade é entender o mundo em que se
vive.
JP – O que a senhora pensa a respeito da
criação de blogs por professores de história?
RG – Todo e qualquer material que possa
ser utilizado por professores e alunos é possível de ser utilizado, é
compatível. E desde que os alunos possam entender que nem todo material da
internet é material adequado para o trabalho, toda e qualquer ferramenta pode
ser utilizada.
JP – Que pontos ou fatores são
primordiais para a boa formação de professores de história e devem fazer parte
de um curso de graduação?
RG – Fundamentalmente, um curso de
graduação deve ter como objetivo permitir que o aluno aprenda a pensar e a
raciocinar historicamente. Que ele aprenda a fazer leituras analíticas e
críticas do material a que ele tenha acesso. Que ele consiga perceber a relação
do conhecimento que está adquirindo, com a sociedade em que ele vive.
JP – Qual é a contribuição que um curso
de pós-graduação pode trazer para o trabalho de um professor de história do
ensino fundamental?
No meu ponto de vista trabalhar qualquer
conteúdo de história significa dominar o instrumental metodológico e teórico da
disciplina. Quanto melhor o professor dominar esse instrumental, melhores
condições de trabalho ele terá com seus alunos. Na verdade, ele precisa
entender como é que o conhecimento histórico é produzido para poder trabalhar
com seus alunos no conhecimento histórico. Regulamentados pela Capes, a área de
história possui 54 programas, até dezembro de 2008.
JP – Esse número atende as necessidades?
RG – Ainda há possibilidade de
crescimento em áreas que ainda não são atendidas pelos programas de
pós-graduação.
JP – Que áreas seriam essas?
RG - O extremo Norte é uma região em que
ainda há necessidade; embora já haja alguns cursos no Centro Oeste, há
possibilidade de crescimento, ainda, nessas regiões, porque são regiões em as
universidades também são mais novas e que agora elas estão investindo no
sistema de pós-graduação.
JP – A senhora teria alguma sugestão
para os professores de história do ensino fundamental, do Brasil?
RG – O campo dos estudos históricos é
absolutamente fascinante para quem está trabalhando nele. E ter a oportunidade
de trabalhar o conhecimento histórico como conhecimento escolar, como algo que
pode ser produzido na escola, com os alunos, é uma das oportunidades de
exercício de criatividade e de compreensão de conhecimento científico, das mais
significativas.
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